29.5.06

follow me

todos tínhamos sonhos em pequeno. ilusões a preto e branco que nos entravam em casa sem fundamento. "quando for grande quero ser astronauta" era a frase mais comum na altura. ver o armstrong aos pinchos na superfície lunar(?), a dar uma tacada de golfe na minha vívida imaginação. ou bombeiro como nos filmes. ou velocista estilo carl lewis ou edwin moses. outros tempos. outros sonhos quando estes eram permitidos pela inocência. mas a vida muda e todos mudamos com ela. aumentam as responsabilidades e os sonhos caiem como pedras soltas no desfiladeiro da vida. impõem-se decisões concretas, eficazes, cruas, sem lugar para sentimentalismos. há contas para pagar, prazos a cumprir, gente para falar. e os sonhos vão ficando esquecidos pelo tempo que tudo banaliza. porque agora toda a gente pode ser astronauta, até milionários judeus de new york pagam 20 milhões de dollars para darem uma voltinha espacial com os russos. ser bombeiro, afinal, é perigoso até nos filmes e paga mal; para mais, as mulheres foram substituindo o ideal masculino do imaginário viril uniformizado por fatos e gravatas de conforto financeiro e duplexes com vista para o rio. o atletismo está minado de drogados e cada vez menos acredito na veracidade e legitimidade dos resultados obtidos nas pistas mundiais. por isso vou andando com menos sonho do que desejaria. porque o sonho não pode mesmo comandar a vida como dizia a cantiga. pelo menos a partir de certa altura. mas recentemente tive uma epifania laboral no autocarro que transporta os passageiros do avião para o terminal na portela lisboeta: absorto em cansaço e pensamentos de fim de viagem, lembrei-me depois de o ver passar que gostava mesmo de ser era condutor do 'follow me' no aeroporto de lisboa. para quem não sabe, o 'follow me' é um fiesta ou jeep amarelo e preto, pintado à boavista, e conduzido a alta velocidade pelo tarmac do aeroporto por pseudo aspirantes a michael schumacher, que indicam aos pilotos para onde levarem o avião. como se eles não soubessem, coitados! ganham milhares de contos por mês e não sabem estacionar! eu entendo, o aeroporto da capital é tão grande que ainda se perdem e vão beber café ao prior velho. segundo consta nos anais aéreos, e na minha humilde experiência, é coisa lusitana, pois não existem em mais lugar nenhum da europa ou do mundo civilizado. se o carro é rápido, mais ainda é o condutor do dito, normalmente baixinho mas altivo, sempre de óculos escuros e fitinha à beto ao pescoço, a sair do carro a grande velocidade para acabar o serviço à mão, gesticulando para o cockpit com ares de ballerina sonolenta. "vá lá pôrra, que tenho a gaja ao telefone e o lufthansa chega daqui a dez minutos...". no outro dia a pressa era tanta que acabou por abalrroar um carrinho de golfe que puxava as malas do voo de ponta delgada. muito açoreano deve ter entrado no continente sem muda de roupa interior. para não falar no queijinho da ilha para a família. nem a propósito, o plano anual de exploração dos aeródromos regionais da sata - gestão de aeródromos, s.a. - prevê a aquisição de viaturas 'follow me' para os aeródromos do pico, são jorge e graciosa. adivinha-se cerrada competição pela conquista dos postos de trabalho, particularmente na ilhas esquecidas pelo tempo onde aterra um ou dois mosquitos por dia. bastava ter pintado o carro da junta de freguesia e coordenado horários com a padaria para não interferir na distribuição dos papo-secos...

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